12/07/2010 date_img 9h27

Política externa do cinema nacional

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Por Marco Farani*

O Itamaraty tem sido tradicionalmente ativo na divulgação da cultura brasileira no exterior. Podemos tomar como exemplo pelo menos dois grandes momentos para a cultura brasileira em que a presença do Departamento Cultural do Itamaraty foi fundamental. Trata-se do grande concerto no Carnegie Hall, em 1964, que representou o lançamento da Bossa Nova no mundo, e dos prêmios alcançados nos festivais de Cannes, Berlim e Veneza pelo Cinema Novo, movimento artístico em que o Itamaraty teve participação decisiva na abertura de portas para o então jovem e assertivo cinema brasileiro.

Com sua extensa rede de representações no exterior, com os setores culturais das Embaixadas e Consulados e os centros de estudos, além de missões junto aos organismos multilaterais, o Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores acumulou experiência na promoção da cultura brasileira no exterior, o que o habilita perfeitamente a impulsionar e apoiar a internacionalização do cinema brasileiro.

A política externa brasileira trabalha com base na observância e na promoção dos processos de integração econômica e política dos quais o Brasil faz parte, como é o caso do Mercosul, e como é a iniciativa inovadora do Ibas ( Índia, Brasil e África do Sul), que aproximou três grandes democracias do Sul. Ao mesmo tempo, a política externa do Governo Lula, conduzida pelo Chanceler Celso Amorim, tem se distinguido por estabelecer uma atitude pró-ativa face ao cenário de crescente multipolaridade do mundo. Graças a essa nova política externa, o Brasil tem ampliado seus interlocutores políticos e seus parceiros econômicos e comerciais.

Nos últimos anos, pudemos testemunhar o aprofundamento de nossas relações com os países em desenvolvimento, o que, nas palavras do próprio Ministro Celso Amorim, “traduziu-se na extraordinária expansão do nosso comércio exterior com aqueles países, que hoje compram cerca de 55% das exportações brasileiras, a maior parte produtos manufaturados”. A América Latina e o Caribe, ainda segundo Amorim, absorvem 26% do total das exportações brasileiras. Sozinha, a América do Sul já é para nós um mercado maior que os EUA.

Neste mesmo período, o Brasil ampliou suas parcerias com a China e a Rússia, e o Presidente Lula da Silva visitou, inúmeras vezes, a África. A realização da primeira cúpula África–América do Sul, em Abuja, e da primeira cúpula América do Sul–Países Árabes, em Brasília, resultaram em um considerável aumento de nossas exportações para os países da Liga Árabe.

Para dar suporte a esse processo de abertura que vem incorporando novos interlocutores, a diplomacia cultural faz-se fortemente necessária. Ela representa o elemento não só capaz de pavimentar os caminhos do diálogo político, mas, sobretudo, de facilitar o melhor entendimento e conhecimento entre parceiros.

A política cultural tem o poder de aproximar nações, contribuindo para reduzir tensões e, sem dúvida, revitalizar relações diplomáticas entre os países. Em seu preâmbulo, a Convenção Sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, aprovada pela Unesco em 20 de setembro de 2005, e recentemente ratificada pelo Congresso Nacional, afirma que “a diversidade cultural, ao florescer em um ambiente de democracia, tolerância, justiça social e mútuo respeito entre povos e culturas, é indispensável para a paz e a segurança no plano local, nacional e internacional”.

A Atuação do Ministério das Relações Exteriores

No campo específico do cinema, que é o objeto deste capítulo, pode-se afirmar que o Ministério das Relações Exteriores já está tomando importantes providências. Em fins de 2005, foi criada a Divisão do Audiovisual (DAV), com o objetivo de promover, acompanhar e coordenar iniciativas brasileiras no campo do audiovisual no exterior. A DAV também se ocupa de apoiar a participação brasileira em festivais internacionais de cinema. Além disso, a Divisão tem tomado suas próprias iniciativas nesse campo, organizando, com grande sucesso, Semanas de Cinema Brasileiro no exterior.

Ainda antes da criação da DAV, a Divulg, divisão que também faz parte do Departamento Cultural, organizou, com apoio de consultoria externa, mostras de cinema brasileiro em diversas capitais, mais precisamente em Buenos Aires, em Santiago, do Chile, na Cidade do México, em Seul e em Pequim. Pode-se dizer que o sucesso desta iniciativa foi um dos motivos que estimulou o Ministério das Relações Exteriores a criar a DAV, com vistas a dar suporte a iniciativas do gênero, bem como a trabalhar juntamente com outros órgãos do governo federal na promoção de nosso cinema e de nosso audiovisual no exterior.

Logo após a criação da DAV, o Departamento Cultural tratou de revitalizar um grupo de trabalho, criado em 2003, com a participação da SAV (MinC) e da Ancine, com o objetivo de coordenar as ações governamentais no exterior e otimizar as iniciativas, além de ordenar e melhor atender às demandas do setor.

Em pouco tempo de existência, a DAV logo passou a ter um papel extremamente relevante, encarregando-se de dar continuidade e de assumir a organização de mostras de cinema brasileiro no exterior, de forma a atender à crescente demanda internacional. Além disso, a DAV vem seguindo com atenção várias ações de Estado no exterior, que visam à promoção do cinema e do audiovisual, dentre elas a iniciativa da Apex, Cinema do Brasil, que se ocupa de divulgar e promover a venda de filmes brasileiros nos principais festivais internacionais do mundo. A presença do Itamaraty neste órgão foi muito bem recebida e o retorno dos gestores destes programas é de que a chancela do Itamaraty é muito importante para os programas, ela abre muitas portas e ajuda a interlocução tanto no exterior quanto no Brasil.

*Trecho do artigo do diplomata Marco Farani no livro “Cinema e Economia Política”, volume II da coleção “Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira”, uma coedição do Instituto Iniciativa Cultural e Escrituras Editora.

FOTO: Estande do programa Cinema do Brasil em festivais internacionais./Divulgação

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