10/12/2010 date_img 8h49

O cinema-subúrbio na região de Dakar

cine-clube-pikine

Por Rosa Spaliviero
Tradução: Marta Lança

No início dos nos 50 a cidade de Dakar fica sobrepovoada. O Estado colonial decide deslocar as famílias dos bairros populares de Dakar: trata-se de verdadeiros “despejos” enquadrados nos projectos de planeamento urbano. Cria-se o Departamento de Pikine que reagrupa “todos os excluídos de Dakar”. Conta-se hoje em dia perto de um milhão de habitantes: fala-se de “Pikine-Pequim”.

A cidade de Pikine tem de fazer face a graves problemas de saneamento, devido à falta de canalizações de evacuação das águas usadas e das águas da chuva. A água penetra nas casas a ponto de as famílias comerem, dormirem e viverem com os pés dentro de água durante meses. Durante o último inverno, algumas famílias foram obrigadas a deslocar-se temporariamente para tendas de auxílio. Só puderam regressar à sua casa na estação seca. Determinadas casas foram, aliás, abandonadas: a água invadiu o corredor, criando  piscinas cobertas de algas verdes, com todas as implicações que isto tem na saúde dos habitantes.

Nas imediações de Pikine, outras localidades abrigam milhares de habitantes: Tounde Ndargou, Dalifor, Hann-Montagne, Dagoudane Pikine, Guinaw-Rails e Thiaroye-sur-mer.

A aldeia de Thiaroye é ainda célebre pela história de um massacre durante a guerra 40-45, a dos “atiradores senegaleses” (cerca de 1300 soldados africanos) que exigem um subsídio e o seu prémio de desmobilização. Em 1944, o exército francês assalta o Campo de Thiaroye.
Os sobreviventes foram condenados a penas de prisão.

O Campo de Thiaroye, o verdadeiro décor do filme homónimo de Ousmane Sembene, tornou-se um mercado desde 2000. Os jovens queixam-se. “Queríamos conservar o nosso património histórico” replicam eles.

Na localidade de Guinaw-Rails (literalmente « atrás da via férrea »), os habitantes são obrigados a atravessar quotidianamente ribeiras de águas usadas, pois a estação de bombeamento é insuficiente e não funciona senão durante a estação das chuvas. Os habitantes solidarizam-se e evacuam a água manualmente com a ajuda de pás, de mangueiras de borracha, e de uma motobomba comprada pela população. A «lei do desenrasca» é a regra em vigor, uma questão de sobrevivência.

Tomar a palavra pelo cinema: Séni

O subúrbio é o lugar de rodagem por excelência dos jovens do cinéma-subúrbio. Séni conta a história de um “aluno terrível”, Séni Fall, que cresceu no “gueto”. Depois do segundo ano de universidade, Séni teve de enfrentar a precaridade: já não há dinheiro para se inscrever. Então diz ele, “a rua recupera-nos e orienta-nos.” A sua história de vida é a da maioria dos jovens de Pikine. Séni fala-nos da marginalidade e da procura de identidade numa sociedade onde tudo é uma questão de combate.

Trata-se da primeira realização colectiva do cinema-subúrbio, uma associação nascida da paixão pelo cinema de jovens amadores, estes « jovens desocupados que se reunem à volta do bule para chá ».  É um cinema impregnado de resistência e de revolta.

Em 2007, Khouma realiza o seu primeiro documentário sobre as inundações – Entropia – com a ajuda de uma câmara tri CCD, emprestada pela associação francesa Jonathan, que veio ensinar aos jovens os rudimentos da informática. “Aprendi com esta experiência que não era preciso ter uma câmara para fazer um filme. É preciso reflectir antes de filmar.”

Khouma estava entre os primeiros do cinema-subúrbio a deixar o seu bairro para participar nas projecções de filmes no centro de Dakar. “Achavam que éramos malucos, íamos até ao centro da cidade para assistir a filmes do Centro Cultural Francês ou ao Goethe Institut, enquanto que há filmes na televisão!”

Depois de algum tempo, os jovens decidiram contestar o monopólio da cidade. O preço do transporte e a distância para aceder às raras salas da capital levaram Khouma e Demba a querer levar o cinema… ao subúrbio. O encontro com um amigo alemão permitiu a primeira projecção. “No dia em que ele veio visitar-nos a Pikine, as pessoas começaram a acreditar no que nós faziam.”

Uma historia de paixão

O cinema-subúrbio nasce também graças à paixão militante do Professor Abdel Aziz Boye, realizador e formador na Escola Superior Politécnica da Universidade Cheick Anta Diop de Dakar. Surgiu no seu escritório, lugar de discussões animadas àcerca do cinema. As autoridades da universidade estão a par, “mas elas não acreditam verdadeiramente”, segundo ele.

Em 2008, houve um curso de iniciação ao cinema em Guédiawaye, no centro sociocultural da municipalidade. Parece que os jovens vinham dos arredores: Guédiawaye, Guinaw-Rails, Keur Massar, Mbao. A mensagem que passava de boca em boca entre os jovens era: “Existe um utópico chamado M. Boye que dá cursos de cinema!”

De há um ano para cá, o cinema-subúrbio instalou-se no Complexo Cultural Léopold Sédar Senghor de Pikine. Na programação, por agora, está exclusivamente o cinema senegalês: entre outros, Sembene Ousmane e Djibril Diop Mambéty.

No cinema-subúrbio, tudo é realizado de forma informal, numa sala improvisada, porque o mais importante é a discussão, a reflexão e a descoberta. “Só podemos contar connosco”, afirma o Professor. Foi instalado um sistema de cotização: solidaridade, partilha e troca fazem sobreviver o cineclube.

Actualmente, os filmes são raros e o público ainda inexistente. É um lugar de trabalho e de pesquisa. Cada um desenvolve o seu projecto, a partilha com os outros, sob a direcção do Professor Boye.

Pela primeira vez, a 13 de fevereiro de 2010, o cinema-subúrbio organiza uma grande projecção pública de Séni, na presença das autoridades municipais. Através da voz da imagem, os jovens afirmam a sua intenção: ter uma palavra a dizer sobre o seu quotidiano, a sua luta e os seus sonhos.

Projectos cinematográficos do cinema-subúrbio:

Os guiões no processo de escrita:

* Nouyo Mouride, de Mouhamed Siradji Sow
* Le Messager de la Foi, de Moussa Fall
* Le Poète errant, de Cheick Ahmadou Bamba Diop
* Sous la fenêtre de Grand Makhaly, de Pape Lopy
* Murmure, de Charles Seck
* Naal, de Mamadou Khouma Gueye
* Un monde différent, de Ngima Badji

Os filmes em montagem:

* El Fenomeno (Le Lutteur), de Demba Dia
* Mbedmi (La Rue), de El Hadji Babacar Diallo
* Du husteling à l’entertainement, de Mamadou Khouma Gueye, Makhfouse Diop e Demba Dia

Os filmes realizados:

* Entropie a Guinaw-Rails de Mamadou Khouma Gueye
* Daouda, Sounay, Saly de Kady Diedhiou
* GR 89/09, de Makhfouse Diop e Mamadou Khouma Gueye
* Séni, de Mamadou Khouma Gueye


FONTE
Buala
Data de publicação: Abril de 2010
Foto: Cine-clube Pikine
Link direto: http://bit.ly/e4QCp0