Engajamento e ética nas telas

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Por Dan Praseres

Aconteceu no Brasil, nos primeiros dias de abril de 2009, a 9ª Conferência Internacional do Documentário, com participação de vários expoentes do cinema de documentário, dentro os quais o grande nome presente foi o israelense Avi Mograbi, para debater o tema “O documentário engajado”. E este é mais um de vários eventos organizados para discussão e debate de uma forma de fazer cinema cada vez mais popular nos dias de hoje: o documentário.

Trata-se de um fazer cinema como instrumento de questionamento social e político, que não deve ser usado como pura e exclusiva ferramenta de roteiristas e no máximo diretores, mas como um meio no qual todos os envolvidos no filme estejam engajados no contexto geral. Ou seja, roteiristas, atores, diretores, técnicos, simpatizantes, espectadores, enfim, não é mais apenas um cinema em prol do entretenimento, mas que aborda os aspectos da discussão humana influindo no modo de pensar da sociedade.

Anterior a isso, no entanto, o cinema, desde seu surgimento, tem sido um valoroso instrumento de registro e arquivo da história e cultura humana. E por muito tempo foi utilizado como mero meio de entretenimento e diversão do espectador. É inegável que esse objetivo de entretenimento predomina o cenário das produções cinematográficas no mundo, em especial incentivado pelo cinema norte-americano.

Nesse sentido questiona-se a adequação que essa ferramenta vem sendo aproveitada; se não estaria o cinema sendo tratado como mera mercadoria, principalmente devido à evolução que o cinema teve. O cinema contemporâneo encontra-se em um estágio em que se revela muito mais importante do que eternizar contos de fadas, caminhando em direção a uma abordagem sócio-política do ambiente no qual está inserida a platéia. O cinema utiliza-se de contextos reais para se aproximar do seu destinatário e para permitir que este se aproxime do cinema.

Hoje em dia isso é muito mais possível e acessível a qualquer pessoa devido à evolução tecnológica que permite que o registro de uma câmera de celular seja subsídio suficiente para que um trabalho seja conhecido no mundo inteiro, através de ferramentas como a internet. A própria questão social é um tema há tempos discutido no cinema, inclusive no Brasil, onde se destaca certamente Glauber Rocha – em seu manifesto intitulado “Estética da fome”, de 1965, em que propunha a exposição nua e crua da realidade miserável de classes menos favorecidas da sociedade brasileira, com uma produção menos voltada ao comércio e mais direcionada à exposição de seus problemas.

Como sendo dura a possibilidade de retratar tal cenário nos cinemas, e sendo pouco interessante ao mercado cinematográfico, como ficou demonstrado nas próprias obras desse cineasta brasileiro, o cinema contemporâneo mudou e passou a abordar os quadros de miserabilidade social de forma a satisfazer os interesses do mercado, ou seja, com o que o espectador gostaria de ver, o que oportunizou a crítica de cinema Ivana Bentes criar em 2001 a expressão “Cosmética da fome”. O contexto no qual está inserido o cinema documental contemporâneo é muito mais do que o sincero engajamento dos envolvidos, mas requer uma exposição ética desse contexto. Ou seja, o documentário deve ser visto como uma ferramenta imparcial, muito embora questões políticas aflorem na elaboração desses projetos, o que permite a comparação com o cinema de militância que ocorria bastante nas décadas de 60 e 70.

As questões sociais levadas à tona pelo cinema propiciam o documentário de crítica mais ferrenha, mais ácida. É nesse momento que a ética, com seus preceitos que norteiam o modo de vida da sociedade, se torna imperativa na discussão sobre o fazer cinema sem agressões visuais e ou temáticas que sirvam de incentivo negativo e despertem ações destrutivas pelos espectadores dentro da própria sociedade. O documentário, uma vez engajado de forma ética e responsável, contribui para a formação crítica da sociedade sobre os próprios problemas sociais e políticos. É o documentário que propicia essa discussão, essa transparência e interatividade na relação cinema-espectador, principalmente por ser uma forma de fazer cinema tão mais próximo e acessível a qualquer pessoa, do que o cinema convencional. Este, por sua vez, tem sua forma de engajamento, onde os valores desejados e alcançados por quem faz nem sempre são os mais elogiáveis.

Ainda o cinema é tratado como mera mercadoria, em que os lucros vêm à frente dos fins sociais, quando há. É um comércio de estereótipos e “souvenirs”, onde as tentativas de se retratar a realidade não passam de mero entretenimento, um show que pinta aos olhos de quem assiste, de forma que até a própria miséria seja bonita, e a platéia tenha a falsa sensação de estar inserida na problemática com esse pouco subsídio visual. Percebe-se que não é um cinema inteiramente engajado, mas uma publicidade da tragédia humana.

Não é essa a tendência do cinema contemporâneo; e pela necessidade humana de lutar pelo que é melhor, nem que seja para si próprio, o sentido ético e dialético do modo de fazer cinema tem aflorado e evidenciado cada vez mais a sua atuação política na sociedade. E essa atuação é “palpável” aos olhos em produções de países onde o conflito político é mais acentuado, como é o próprio caso de Israel, onde se destaca Avi Mograbi, como já foi Godard na França, e vários outros cineastas no mundo inteiro, em especial Glauber Rocha no Brasil.

Ninguém contesta mais que viver em sociedade é viver sempre na iminência de se engajar politicamente em algum momento; e o cinema é um canal aberto para o engajamento político, e não um instrumento político, quando então a ética deixa de ser uma fonte norteadora do fazer cinema, e passa a ser mais um “souvenir”.

Fazer cinema sobre a realidade, mas com responsabilidade, é o que se espera. Mas atualmente o documentário é o que melhor se preocupa com isso, retratando o olhar do cineasta e colocando, propositadamente, à disposição da sociedade, para que ela preencha as lacunas com interpretações, opiniões, expectativas e engajamento.


FONTE:
Revista Cinema Caipira
Edição nº 04