“Viajo porque preciso” abre Tiradentes

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Por José Márcio Mendonça

TIRADENTES – Para a noite de abertura da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, foi escolhido o provocativo, quase experimental, “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, fruto da parceria de Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) com Karim Aïnouz – dos premiados filmes “Madame Satã” e “O céu de Suely” e também homenageado da festa. No sábado pela manhã, foi a vez de “O guerreiro Didi e a ninja Lili”, de Marcus Figueiredo, com elenco estelar global (Renato Aragão e Vanessa Lóes), blockbuster nacional lançado em 2009 no circuito exibidor.

Esses são os paradoxos do cinema brasileiro na 13ª. Mostra, que está em cartaz em Tiradentes, cidade histórica mineira, até o dia 30 de janeiro. De um lado, um filme de Aïnouz e Gomes que demorou anos para ser executado e finalizado, por conta das dificuldades mais do que conhecidas do financiamento de determinadas produções audiovisuais no Brasil. De outro lado, uma produção que passa longe desses problemas.

No debate entre diretores e atores, com a presença de Aïnouz em uma mesa montada para discutir a trajetória do cineasta, Marcelo Gomes definiu em poucas palavras as dificuldades enfrentadas por aqueles que tentam fazer um cinema que vai além do simples entretenimento, no Brasil: “É prazeroso, é difícil, sofrido”.

Aïnouz, com a experiência de quem já trabalhou em cinema nos Estados Unidos – onde a máquina funciona para qualquer produção – vai na mesma direção quando reflete sobre seus projetos futuros. E lembra que ainda não há uma verdadeira indústria cinematográfica no Brasil. Sua próxima obra já está a caminho: “Praia do Futuro”, uma coprodução Brasil-Alemanha, com locações no Ceará e na Europa.

No meio cinematográfico brasileiro, de acordo com Aïnouz, há espaço quase infinito, da produção à distribuição, para os filmes com a chancela de Globofilmes. Não é à toa que um filme de puro entretenimento, como “Se eu fosse você”, de Daniel Filho, tenha ficado, sozinho, com quase 40% de toda a bilheteria do cinema nacional em 2009. Ao mesmo tempo, existe uma série de filmes – já finalizados há dois, três anos – que estão nas prateleiras, esperando por uma vaga em alguma sala.

“Não tenho nada contra o cinema chamado de entretenimento, mas não é o meu interesse. Quero fazer um cinema que passe inquietação, dúvidas desconforto”, explica Aïnouz.

O diretor de “Viajo porque preciso…” também classifica o seu cinema como político. No sentido mais lato: uma prática de inclusão individual, social, com foco no cotidiano, retratando o que está acontecendo no mundo, no Brasil.

“Sempre trato das relações de poder”, diz ele. “Me incomoda essa relação no Brasil da pretensa cordialidade: meu irmão para lá, meu irmão para cá. ‘Madame Satã’ passa a política da raiva, do enfrentamento, questões políticas”, recorda.

O desafio proposto pela 13ª. Mostra de Cinema de Tiradentes é a busca do equilíbrio entre esse cinema de Aïnouz e dos novos cineastas que estão surgindo, como Felipe Bragança (“A fuga de mulher gorila”) e de blockbusters como “Divã”, de José Alvarenga Jr., com Lília Cabral.

Paradoxalmente, o pêndulo está caindo para um lado. E não é o lado que dá prestígio ao cinema brasileiro. E menos ainda aquele que ajuda a definir a identidade brasileira e a identidade do cinema nacional. Tem a tal lógica do mercado. Não pode ser a medida de tudo, porém.

Confira a programação do evento no site: www.mostratiradentes.com.br