A ruptura da condição humana

harragas

Por Patricia Caillé

Merzak Allouache, diretor argelino, é uma das principais vozes do cinema magrebino contemporâneo. Autor de grande sucesso de público, dentre suas realizações destacam-se “Omar Gatlato” (1976), “Chouchou” (2003) e “Bab El Web” (2004). Comédias populares são recorrentes na sua obra cinematográfica, entretanto, o diretor não se restringe a esse gênero. Com “Bab El Oued City” (1993), Allouache realizou seu primeiro filme argelino sem qualquer subsídio estatal e estruturou uma narrativa sobre a condição de uma mulher abandonada na Argélia pelo seu marido emigrante. “Harragas” (em tradução livre, ‘Os Queimadores’) se situa como continuidade dessa temática, na medida em que aborda as recorrentes e trágicas condições de vida de jovens argelinos, propulsoras de emigrações ilegais.

A dimensão política de Harragas é reiterada por sua própria sinopse, que denuncia o imobilismo das autoridades argelinas: “Em um momento em que o barril do petróleo ultrapassa os US$ 100, a Argélia nada em dinheiro e deixa seus filhos à própria sorte. Centenas de jovens são expulsos, deixando-se ‘queimar’, ‘queimar’…”. Allouache coloca os holofotes sobre o Mediterrâneo, o mar fechado de azul turquesa dos folhetos turísticos onde se perderam tantos jovens vindos do Sul, magnetizados rumo ao desenvolvimento e conduzidos quase invariavelmente ao naufrágio íntimo, humano e social. Estamos no seio do filme que termina listando o número de desaparecidos, cifra análoga ao de sonhos naufragados.

A temática do filme não é exclusivamente argelina dado que ela é constitutiva dos cinemas do Magreb, já fora tratada sob diversos enfoques. É o caso do belo documentário “Tanger, rêves brûleurs”, de Leïla Kilani (2002), ou ainda a ficção “Et après”, de Mohamed Ismaël (2002). Na Argélia, os ateliers de Bejaïa haviam produzido um documentário marcante “Harguine, Harguine”, de Meriem Achour Bouaakaz (2007), ao passo que na Tunísia “Aéroport Hammam-Lif”, de Slim Ben Chiekh (2007), documentou a espera e todas as lições aprendidas pelos candidatos à partida do país; as condições que culminam no desemprego; a amargura face um país do qual um não espera mais nada. Esta lista não é exaustiva, já que as migrações clandestinas retratadas no cinema magrebino não se limitam à ultrapassagem do mar Mediterrâneo.

Leia aqui o artigo original e completo (em francês).

Assista ao trailer de “Harragas”, do diretor argelino Merzak Allouache:

 


FONTE
Revista Africultures
Tradução: Camila Pietrobelli