Balanço do 20º. Cine Ceará

cineceara2010

Por Maria do Rosário Caetano
               
1. CINE CEARÁ ANO XX: no ano que vem, a edição XXI do festival deve acontecer no centenário Teatro José de Alencar.  Se isso acontecer, o festival abandona o Cine São Luiz e a Praça do Ferreira.
 
2. O ATOR ITALO-COLOMBIANO Salvatore Basile entregou prêmio-homenagem a Patrícia Pillar

3. FILME ARGENTINO VENCE O XX CINE CEARÁ: O júri oficial, presidido por Roberto Farias (Brasil) e composto com um produtor espanhol (Luis Reneses), o diretor do Festival de Chicago (o colombiano, radicado nos EUA, Pepe Vargas), a ensaísta francesa, Sylvie Debs, e o cineasta argentino Miguel Nato, premiaram o longa “O Último Verão de la Boyita”. Boyita é um trailer anfíbio (anda em terra e em lagoas). O produtor do filme, Pepe Salvia, definiu o equipamento como “uma invenção argentina, que saiu de linha, pois era muito frágil e perigosa”. O segundo filme mais premiado foi o espanhol “A Mulher Sem Piano”. Ambos bons. O júri deixou de mãos abanando o ótimo “Alamar”, do México. Este filme não conseguiu distribuição em seu próprio país, mas foi comprado pelo francês Marin Karmitz (MK2) para distribuição na Europa. A crítica cinematográfica elegeu, por unanimidade, “Alamar”. Sua justificativa: “Pela sensibilidade ao mostrar a relação afetiva entre uma criança, seu pai, avô e a natureza, rompendo fronteiras entre documentário e ficção, o prêmio vai para o filme de Pedro Gonzáles-Rubio”. Já na categoria curta-metragem, o júri oficial e a crítica coincidiram: “Pelo notável e poético registro do cotidiano de seus personagens e pela tocante relação afetiva que mantém com o cinema, a crítica premiou “Ensaio de Cinema”, de Allan Ribeiro”. Não houve unanimidade (o segundo curta mais votado foi “A Amiga Americana”).
 
4. ELIZA TRIANA (ESCUELA DE CUBA – 100 LONGAS) – O júri oficial deu pouca atenção ao belo “Do Amor e Outros Demônios”, dirigido pela costarriquenha Hilda Hidalgo, formada pela Escuela de Cuba. Orlando Senna lembrou, no Cine Ceará, que a escola dos três mundos, sediada em San Antonio de los Baños, já contabiliza 100 longas-metragens de alunos e ex-alunos (e muitas centenas de curtas e médias), desde que foi fundada em 1996. Para protagonizar o filme que recria, com fidelidade, o romance de Gabriel García Márquez, Hilda convocou a jovem (e bela) Eliza Triana. Li em algum lugar que ela é filha do cineasta Jorge Ali Triana (“Edipo Alcalde”, roteiro escrito por Gabo & Orlando Senna). O filme ambienta-se nos tempos da Inquisição, numa cidadezinha colombiana (Cartagena de las Índias), e mostra o amor impossível entre a adolescente (13 anos) Sierva Maria (Eliza Triana), filha de marqueses, e um padre, Cayetano, de menos de 40 anos, a quem caberá (por mando do Bispo) exorcizá-la. Serva Maria é mordida por um cão raivoso. A família a interna num convento, acreditando que ela está endemoniada. A cineasta é apaixonada por Tarkovski. Há, no filme (em especial na figura de Serva Maria) evocações (principalmente) de “Nostalgia”, do cineasta russo.
 
5.  COLETIVO ALUMBRAMENTO (Um longa e três curtas na mostra competitiva): O grupo cearense, que reúne onze integrantes, apresentou 4 filmes na mostra oficial e mais alguns na Mostra Ceará. Recebeu vários prêmios. Inclusive o do BNB e o Aquisição Canal Brasil. Alguns de seus integrantes estão no interior do estado, trabalhando com Joe Pimentel no longa “Homens com Cheiro de Flores” (um B.O.-MinC).
 
6. LIVRO: CINECEARÁ- 20 ANOS DE HISTÓRIA (organizado por Firmino Holanda):  Na capa, uma imagem de Orson Welles filmando “Jangadeiros” (episódio de It’s All True, no Ceará) e outra do mascate-cineasta Benjamin Abrahão cumprimentando Lampião e Maria Bonita. O livro narra a trajetória do festival Cine Ceará e reúne artigos sobre o cinema cearense (textos de Firmino Holanda e outros cineastas e pesquisadores). 
 
7. CONCEIÇÃO SENNA LANÇOU O LIVRO “A Menina, A Guerra e As Almas” (ambientado na região geográfica da Guerra  de Canudos) — Leiam longa entrevista dela na capa do Caderno 3, do Diário do Nordeste (em 25-06-10). O livro é prefaciado por Sylvie Pierre. Em comovente entrevista ao jornal “Diário do Nordeste”, Conceição Senna (atriz e diretora) conta que acaba de enfrentar um câncer de mama. Ela já fez quimioterapia e está bem de saúde, cheia de planos/projetos.
 
8.  SYLVIE PIERRE E AS REVISTAS DE CINEMA: A crítica de cinema francesa, Sylvie Pierre (não confundir com Sylvie Debs, que estava no júri do XX Cine Ceará) participou ativamente dos debates dos filmes das mostras competitivas (de longa e curta) do festival cearense. No final de um dos debates, pedi que ela se sentasse à mesa para uma breve conversa com os jornalistas. Sylvie, que hoje escreve na revista Trafic – e que foi colaboradora ativa da Cahiers du Cinéma (pela editora da revista, ela publicou, em francês, livro sobre Glauber Rocha, depois traduzido aqui) – relembrou os anos em que morou no Brasil (década de 70), elogiou o livro “A Menina, a Guerra e as Almas”, de Conceição Senna, que ela prefaciou e analisou o futuro de revistas como Cahiers Du Cinema, Positif e Trafic. Para ela, o caso mais complicado é o da mensal “Cahiers”, pois a revista profissionalizou-se. Tornou-se, alguns anos atrás, propriedade da Editora Le Monde (o jornal também vive momento complicado), que a vendeu recentemente para editora britânica. Mantém uma redação remunerada como qualquer outra publicação profissional. Já a Positif mantém-se, ainda, nos moldes da colaboração voluntária ou a “preços camaradas”. Mesmo caso da Trafic, que é trimestral.

9. PALESTINOS: Cine Ceará exibiu, em sua noite de encerramento, o filme “Matar um Elefante”. Quem quiser mais informações sobre este documentário, realizado quando Israel bombardeou a Faixa de Gaza, em 2008, poderá fazê-lo no seguinte endereço:
www.toshootanelephant.com
 
10. ALICE DE ANDRADE: O REGRESSO: A cineasta brasileira, formada pela Escuela de San Antonio de los Baños, que reside na França há 17 anos, promete regressar, de vez, ao Brasil, em dezembro deste ano. Alice participou do Cine Ceará com o longa documental “Memória Cubana”. Trata-se de filme de colagem/arquivo, que tem como ponto de partida o rico acervo dos Noticeros, do ICAIC (Inst. Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica). Os “noticeros” eram cinejornais exibidos nos cinemas cubanos (até a crise de 1990/1991). Tiveram duas etapas: uma gloriosa, da fase revolucionária, comandada por Santiago Alvarez. A outra (ainda com Santiago na linha de frente) revelou nomes como Fernando “Madagascar” Perez, Daniel Díaz Torres (Alícia en el Pueblo de las Maravillas), etc, etc. Para realizar o filme, Alice contou com Canal Cinema, da França, com o ICAIC e com o Canal Brasil (ela agradeceu muito o apoio e sugestões recebidas de Paulo Mendonça). E contou com dois parceiros especiais: o fotógrafo (ou cinegrafista) Ivan Nápoles (ela abre o documentário avisando tratar-se de um filme dela & de Ivan. Mas nos créditos finais vemos que a direção é só dela) e o pesquisador Paulo Paranaguá, grande estudioso do cinema latino-americano (ele tem um livro maravilhoso sobre o assunto, que merece reedição e atualização). Alice dirigiu os curtas “Luna de Miel”, “Dente por Dente”, “Biju na Laje”, o documentário “Histórias Cruzadas” (sobre Joaquim Pedro de Andrade) e o longa ficcional “O Diabo a 4”. Em “Memória Cubana” (que ela montou com Tainá Menezes), vemos uma síntese de “Now”, de Santiago Alvarez, Godard em sua passagem por Cuba (com Anne Wiazemsky), registros de Che Guevara, Guerra do Vietnã, Revolução dos Cravos, queda de avião cubano sabotado (em 1976: nele morreram a mulher de Santiago Alvarez, que era aeromoça, a equipe de esgrima de Cuba e o pai do futuro cineasta Juan Carlos Cremata), mais de 70 pessoas. Alice acredita que seu filme vá direto para a TV, sem passar pelos cinemas. Na trilha sonora, um “Noticero” animado por “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso. O compositor cedeu, gratuitamente, o uso da música no filme da filha de Joaquim Pedro.

11. NEWTON CANNITO & MANOEL RANGEL (1) — O novo secretário do Audiovisual-MinC esteve numa das mesas de debate do Cine Ceará, ao lado de Rosemberg Cariri, presidente do CBC (Congresso Brasileiro de Cinema, que se reunirá em setembro, de 11 a 17, em Porto Alegre), de Tatiana Portela, e de Manoel Rangel (diretor-presidente da Ancine). Em debate: os mecanismos de fomento ao audiovisual no Nordeste. Rangel dedicou parte do tempo ao projeto “Cinema Perto de Você”, lançado em Luziânia-Goiás, no último dia 23 de junho, por Lula & Juca Ferreira, por acreditar que alguns municípios nordestinos serão beneficiados com a construção de novos cinemas vocacionados para a Classe C.

12. NEWTON CANNITO & MANOEL RANGEL (2) – Newton Cannito (foi a primeira vez que o vi falar em um evento público, como titular da SAV-MinC, aliás, a primeira vez que o vi pessoalmente e ouvi a voz dele!), emitiu conceito que me ajudou a compreender, em parte pelo menos, a escolha de seu nome para titular do órgão (tenho umas 2 ou 3 outras “explicações” pessoais para a mudança). Depois de discorrer sobre o Fundo de Inovação Audiovisual, Cannito anunciou que sua gestão pretende “mudar  o paradigma que antagoniza “cinema cultural e cinema comercial”. Pois este dilema “é maniqueísta”. Detalhou esta ideia com exemplos (“Cidade de Deus é um filme que fez experimentação de linguagem e que foi bem no mercado/conquistou público”….). E lembrou que o MinC quer trabalhar/fomentar games, animação/HQ (como na Coreia do Sul), séries para TV, filmes, etc, etc, etc. E apostar em “Centros Vocacionais/ambientes culturais”.

13. DAMIÁN ALCÁZAR – Alfredo Catania, que dividiu o prêmio de melhor ator no Cine Ceará com Damián Alcázar, é costarriquenho, cubano ou argentino? No debate do filme “O Último Comandante” (Isabel Martínez & Vicente Ferraz), perguntei aos participantes: quem se lembra do nome do ator mexicano que faz um padre em “Má Educação”, do Almodóvar? Todos se lembraram só da presença do protagonista, interpretado pelo  jovem mexicano Gael García Bernal. Eu estava em dúvida se era Damián Alcázar ou  Daniel Gimenez Cacho. Fui checar, depois, e um dos “padres/curas” do filme almodovariano é Giménez Cacho, que vimos em “Profundo Carmesi”, “Zona de Conflito”, “Cabeza de Vaca”, etc. Ele nasceu em Madri, mas foi criança para o México. Já Alcázar foi parceiro de Alice Braga em “Só Deus Sabe” (coproduzido por Sara Silveira), tornou-se conhecido no Brasil com “Bajo Califórnia”, fez “A Lei de Heródes”, “O Crime do Padre Amaro” e “Sexo por Compaixão”. Vicente me recomendou um filme dele, chamado “Cronicas”, dirigido pelo equatoriano Sebastian Cordero.
 
14. CINECEARÁ 2010 ENTREGOU TROFEU “EUSELIO OLIVEIRA” A FRANCISCO LOMBARDI — O ator Nelson Xavier, protagonista de filmes como “O Mágico e o Delegado” e “Chico Xavier” (ele está em “Os Fuzis”, “A Queda”, que co-dirigiu; “A Rainha Diaba”), entregou ao cineasta peruano, Francisco Lombardi, diretor de “Pantaleão e as Visitadoras”, baseado em livro homônimo de Mario Vargas Llosa, o Troféu Eusélio Oliveira, atribuído pelo Cine Ceará a grandes realizadores latino-americanos. O cineasta, que faz (fez) sua primeira visita cinematográfica a um festival brasileiro, ganha o troféu pelo “conjunto da obra” (ele é autor de 16 longas-metragens, sendo que dois deles — “Pantaleão e as Visitadoras” e “Não Diga Nada a Ninguém” — figuram entre as maiores bilheterias da história do cinema peruano). Lombardi, que é também dirigente esportivo, já esteve no Brasil, mas para acompanhar seu time, o Sporting Crystal, em disputas pela Libertadores da América. Acompanhou, também, a Seleção Peruana em Eliminatórias da Copa de 2006. Se Lombardi fosse menos tímido, ele receberia, em Fortaleza, além do troféu Eusélio Oliveira, uma camisa da Seleção Brasileira e outra do Ceará Esporte Clube. Nunca é demais lembrar que o time cearense está em segundo lugar no Campeonato Brasileiro (com 17 pontos, mesma quantia do Corinthians de Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos e Dentinho). Está em segundo lugar por causa do saldo de gols. O Corinthians tem um gol a mais. Lombardi recebeu apenas o troféu. E o fez com timidez e recato.

15. CINEMA “CONJUGAL” LATINO-AMERICANO — Descobri, no Cine Ceará, que vão, aos poucos — e graças à Escola Internacional de Cinema de San Antonio de los Baños, nos arredores de Havana — aumentando os casais brasileiro/hispano-americanos. Glauber, todos sabemos, foi companheiro de Teresa, uma cubana, e, mais tarde casou-se e teve dois filhos com a atriz e cineasta colombiana Paula Gaitán, mãe dos cineastas Ava Rocha e Eric Rocha. Já sabia (claro!) que o cearense Wolney Oliveira é casado com a cineasta cubana Margarita Hernández. Sabia também que o carioca Vicente Ferraz é casado com a cineasta costarriquenha Isabel Martínez. Juntos fizeram os longas “Soy Cuba – O Mamute Siberiano” (ele na direção, ela na produção) e agora dirigem juntos “O Último Comandante”. A novidade, desta vez, foi saber que Marcus Moura (“Iremos a Beirute”) é casado com a peruana Micaela Cajahuaringa, fotógrafa do maravilhoso “Postais de Lenigrado”, filme venezuelano que venceu o Cine Ceará 2008.
 
16. HOMENAGENS DO CINE CEARÁ 2010 — Um dos  prêmios-homenagem Eusélio Oliveira, do Cine Ceará, foi entregue à atriz (Sanpaku, Quatrilho, Menino Maluquinho, Amor & Companhia, Zuzu Angel) e diretora (Waldick – Para Sempre em Meu Coração) Patrícia Pillar, pelo ator ítalo-colombiano Salvatore Basile. Salvatore nasceu em Nápoles  e tornou-se cidadão do mundo (iniciou-se no cinema ajudando Gillo Pontecorvo nas filmagens do épico anti-colonialista, “Queimada”) até apaixonar-se por uma colombiana e radicar-se no país de Gabriel García Marquez. Atuou em 49 filmes. Com o mestre Sergio Leone fez “Era Uma Vez no Oeste”, protagonizado por Claudia Cardinale e Charles Bronson. Trabalhou com Werner Herzog no filme “Cobra Verde”. Produziu e atuou em três filmes de Sergio Cabrera, entre eles “A Estratégia do Caracol”. Recentemente, interpretou o prefeito da cidadezinha que ambientou  o filme “O Amor Nos Tempos do Cólera”, ao lado de Javier Barden, Fernanda Montenegro e Angie Cepeda. Ele integra a direção do Festival de Cartagena de las Indias (Colômbia). O festival também foi homenageado pelo Cine Ceará, por ser o mais antigo da América do Sul (51 edições), dedicado ao cinema ibero-americano.

17. OUTRAS HOMENAGENS – O festival cearense homenageou também o ator Mauro Mendonça, de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (o prêmio foi entregue por Sônia Braga), o Canal Brasil, por sua dedicação ao audiovisual brasileiro (o prêmio foi recebido por Zelito Viana), os cineastas cearenses Marcus Moura e José Rodrigues Neto (este dedicado ao cinema de animação). O Fórum dos Festivais homenageou, no palco do Cine Ceará, o ex-secretário do Audiovisual e cineasta Silvio Da-Rin (Hércules 56).

18. O ÚLTIMO COMANDANTE – O filme rendeu prêmio de melhor ator ao mexicano Daminán Alcázar e a Alfredo Catânia. Vicente Ferraz esclarece que “Catânia é argentino. Como muitos artistas, ele saiu da Argentina durante o governo militar e se radicou na Costa Rica, e assim se sente: costarriquenho da gema! Ele está muito feliz! Esse é o primeiro prêmio internacional para um ator deste pequeno país centroamericano”. E mais: “Em relação ao filme que você cita no Almanaquito, “And Starring Pancho Villa As Himself”, Damián Alcázar trabalhou de “extra de lujo” nesta produção hollywoodiana sobre Pancho Villa e D. W Griffith. Seria legal perguntar para algum mexicano, o que achou do filme!!!”

19. CINEMA POR ESCRITO (PARAÍBA) – O cineasta Marcus Vilar, diretor de “A Canga” (curta dos mais premiados) e de longa documental sobre Ariano Suassuna, deve fazer em breve seu primeiro longa ficcional, um B.O.-MinC. E continua trabalhando, devagar e sempre, num longa documental sobre o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro. Vilar participou do júri de curta do Cine Ceará. E me presenteou com o livro “Cinema Por Escrito – Crítica de Filmes em A União”, de Antônio Barreto Neto. A organização do livro é de Sílvio Osias. Editora: A União. Depois comento.

Confira aqui a lista dos premiados do Cine Ceará 2010.

FOTO: Lee Rodrigues.