As práticas do audiovisual em São Paulo

As práticas do audiovisual em São Paulo

 

Por Isaura Botelho*

O presente trabalho se apoia nas reflexões e nos resultados da pesquisa sobre o “Uso do Tempo Livre e as Práticas Culturais na Região Metropolitana de São Paulo”, realizada em duas etapas no Centro de Estudos da Metrópole do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap. A pesquisa foi complementada, posteriormente, por um vídeo intitulado “Inventar no Cotidiano”, que voltou a entrevistar alguns participantes das etapas anteriores.

A primeira fase constou de uma sondagem realizada num universo de 2002 pessoas com mais de 15 anos, residentes na Região Metropolitana de São Paulo. Em seguida, uma segunda etapa foi levada a campo, sendo composta de entrevistas em profundidade realizadas com uma subamostra de cerca de 5% dos entrevistados na etapa quantitativa anterior.

Nessa segunda etapa, o critério de seleção foi a intensidade de práticas culturais dos indivíduos em correlação com as variáveis sociodemográficas. Desde o primeiro momento da pesquisa, os resultados apontaram a enorme desigualdade de acesso à cultura tradicional e o peso respectivo das variáveis sociodemográficas, como níveis de escolaridade e de renda, faixa etária e localização domiciliar.

De alguma forma, esses resultados não foram surpreendentes, pois correspondiam não só à percepção que já se tinha do fenômeno, como também corrobora o que é apontado amplamente na literatura internacional sobre o tema.

As entrevistas da segunda fase da pesquisa, embora confirmassem aquilo que os dados quantitativos já haviam apontado, dá-lhes “vida e cor”, colaborando para uma leitura mais cuidadosa dos resultados. Se a freqüência a atividades culturais legitimadas socialmente – como as idas ao teatro, museus ou espetáculos musicais – não tem porcentagens tão expressivas, as entrevistas da segunda fase apontaram uma vida cultural da população mais intensa e mais participativa do que se poderia entrever. Nesse sentido, as práticas amadoras têm grande peso na vida das pessoas, que saem para dançar, cantam, escrevem ou compõem, por exemplo.

Sendo assim, deu-se atenção não apenas às atividades legitimadas socialmente como culturais (teatro, cinema, museus e exposições, concertos e espetáculos musicais etc.), como se levou em consideração um conjunto de práticas mais identificadas com a sociabilidade e o entretenimento. Nesse texto, esses elementos serão considerados apenas quando contribuírem para enriquecer o perfil dos entrevistados. (…)

Localização de salas de cinema

Do ponto de vista dos equipamentos culturais de natureza privada as salas de cinema são as mais bem distribuídas no território, em função das múltiplas salas localizadas em shopping centers. É, portanto, o comércio que garante, por enquanto, a existência de cinemas em pontos extremos da malha urbana, exatamente aquelas áreas que concentram crianças e jovens entre 10 e 19 anos, advindas de lares com baixa escolaridade e renda, regiões praticamente desprovidas de equipamentos culturais.

Observado o fato de que os deslocamentos físicos se tornam cada vez mais difíceis, pode-se dizer que a mobilidade territorial e o uso de equipamentos culturais se convertem, cada vez mais, em direito e privilégio das classes com maior poder aquisitivo. Verifica-se aqui a imensa dificuldade que os poderes públicos encontram no sentido de corrigir este desequilíbrio. Ou seja, se a evolução econômico-social da cidade radicalizou o problema de acesso, constata-se que o setor cultural tem dificuldades em intervir, deixando nas mãos do mercado a oferta de bens culturais deste tipo. Os dois mapas a seguir ilustram o que foi dito anteriormente.

Práticas relativas ao audiovisual na pesquisa – Cinema

Em que pese as inúmeras observações, principalmente entre os profissionais do setor audiovisual, sobre a perda de público das salas de cinema, a pesquisa em pauta mostrou que ir ao cinema continua sendo a prática mais popular dentre todas aquelas que implicam em sair de casa. O “sair de casa” consta, na literatura voltada ao estudo das práticas culturais, como uma atividade mais distintiva do que aquelas realizadas em domicílio, justamente por implicar numa disposição, por parte do indivíduo, que envolve deslocamento e dispêndio de tempo e dinheiro.

Mesmo assim, a porcentagem dos que afirmaram nunca ter ido ao cinema foi bastante alta, atingindo cerca de 1 em cada 5 entrevistados (17,1%). Um olhar mais detido sobre esse subgrupo revela que ele é composto basicamente por indivíduos com baixo nível de escolaridade e pertencentes predominantemente às classes D/E e C. Por outro lado, quase a metade de todos os entrevistados afirmou não ter ido ao cinema nos doze meses anteriores à pesquisa.

Aqui também verifica-se a preponderância de pessoas com baixo nível de escolaridade e situadas nas classes D/E e C. Esses dois subconjuntos de entrevistados somados perfazem, na média, 64,8% da amostra – percentual que chega a 87,1% nas classes D/E e a 86,7% entre os de baixa escolaridade.

Surpreendente é termos cerca de 4% dos entrevistados pertencentes às classes A/B afirmando nunca ter ido ao cinema em suas vidas, índice que atingiu quase 2% entre o grupo com alto nível de escolaridade. Estas porcentagens, embora baixas, vão de encontro à expectativa baseada no que seria previsível em matéria de vida cultural fora de casa, como escolaridade e renda.

Uma hipótese aqui seria o fato de esses entrevistados serem mais escolarizados de “primeira geração”, ou seja, são os primeiros da família a obterem um diploma universitário (desenvolvimento do capital escolar). No entanto, a maior ou menor propensão a práticas culturais depende de uma variável, principal e ao mesmo tempo “oculta”, que é a bagagem cultural herdada do universo familiar. Considerando essa hipótese, estaríamos diante de pessoas advindas de famílias pouco afeitas à vida cultural. Ressalte-se ainda que a porcentagem de entrevistados das classes mais altas e escolarizadas que não frequentou cinema no ano anterior à pesquisa foi significativa: quase um quarto destes com nível alto de escolaridade e pouco menos que 40% das classes A/B afirmaram não ter ido ao cinema naquele período.

Se considerarmos frequentador assíduo aquele que afirmou ir ao cinema pelo menos uma vez por mês, teremos quase um quinto dos entrevistados nessa categoria (19,4% dos entrevistados). Em uma projeção dos dados da pesquisa para o universo da população acima de 15 anos residente na região metropolitana de São Paulo, estaremos lidando com mais de dois milhões e meio de frequentadores de cinema, número bastante expressivo.

*Trecho do artigo de Isaura Botelho no livro “Cinema e Economia Política”, volume II da coleção “Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira”, uma coedição do Instituto Iniciativa Cultural e Escrituras Editora.

FOTO: Público acompanha a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no Vão Livre do MASP/Divulgação

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